Tema de redação: dependência tecnológica, scroll, FOMO e brain rot
Publicado em 04/11/2026 · Conferido em 04/11/2026 (horário de Fortaleza)
“Desafios para enfrentar a dependência tecnológica entre adolescentes brasileiros: scroll, FOMO e brain rot” é um tema possível para treinar a redação do Enem. Ele junta três assuntos que costumam aparecer nas provas: juventude, tecnologia e saúde mental. Neste guia, você vê o que o tema pede, o que significam os conceitos, que dados e repertórios usar (com fontes) e como montar cada parte do texto, da tese à proposta de intervenção.
Um aviso importante antes de começar: ninguém sabe qual será o tema do Enem, e o Inep não divulga o assunto antes da prova. Este é um tema de treino. Ele serve para você praticar argumentos que podem ser úteis em vários recortes sobre tecnologia, educação e juventude. A redação do Enem 2026 está marcada para o primeiro dia de provas, 8 de novembro, segundo o Inep. Por isso, a melhor aposta agora é treinar o método, e não decorar um texto pronto.
Por que este é um tema possível (e não uma aposta)
A tecnologia já apareceu no Enem. Em 2018, o tema da redação foi “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”, como registra o Inep. Aquele recorte tratava de algoritmos e de dados pessoais. Este tema dá um passo adiante: em vez de focar a coleta de dados, olha para o efeito do uso excessivo de telas na vida de adolescentes.
O assunto também está na agenda pública. Em 13 de janeiro de 2025, foi sancionada a Lei n.º 15.100/2025, que restringe o uso de celulares por estudantes nas escolas de educação básica. Em 17 de setembro de 2025, veio a Lei n.º 15.211/2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como ECA Digital, que está em vigor desde 17 de março de 2026, segundo a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Quando um problema social ganha leis, pesquisas e debate na imprensa, ele vira um bom material de treino, mesmo que não caia na prova.
O que o tema pede: leia a frase temática por partes
A cartilha do Inep explica que a redação tangencia o tema quando trata só do assunto mais amplo, sem cumprir o recorte. Nesse caso, a nota fica limitada a 40 pontos nas Competências II, III e V. Por isso, vale separar a frase temática em blocos:
“Desafios para enfrentar”: o texto precisa discutir obstáculos, isto é, o que dificulta o enfrentamento do problema, e não apenas descrevê-lo.
“Dependência tecnológica”: o foco é o uso compulsivo ou excessivo, que prejudica outras áreas da vida, e não a tecnologia em geral.
“Entre adolescentes”: o recorte etário é obrigatório. Falar só de adultos ou da “sociedade” de modo genérico enfraquece o texto.
“Brasileiros”: é preciso trazer a realidade do Brasil, com dados, leis ou situações do país.
“Scroll, FOMO e brain rot”: os três termos indicam os mecanismos do problema. Você não precisa explicar os três em detalhes, mas mostrar que entende pelo menos um ou dois deles ajuda a provar domínio do recorte.
Em resumo, uma redação completa sobre este tema discute por que é difícil reduzir a dependência de telas entre adolescentes no Brasil, usando os conceitos do recorte. Um texto que só elogia ou só condena a internet corre o risco de tangenciar. Para revisar esse cuidado, veja também como evitar o tangenciamento do tema.
Os três conceitos do recorte
Scroll infinito
Scroll é o gesto de rolar a tela. O scroll infinito é o formato em que o conteúdo nunca acaba: quando você chega ao fim, novos vídeos ou posts são carregados automaticamente. Como não há um ponto natural de parada, a decisão de parar fica toda com o usuário. Na redação, esse conceito ajuda a mostrar que o problema não é só “falta de força de vontade”, mas também o desenho das plataformas, pensado para prender a atenção.
FOMO
FOMO é a sigla em inglês para fear of missing out, o “medo de ficar de fora”. Em um estudo publicado em 2013 na revista Computers in Human Behavior, os pesquisadores Andrew Przybylski e colegas definiram o FOMO, em tradução livre, como uma apreensão difusa de que outras pessoas possam estar vivendo experiências gratificantes das quais a pessoa está ausente, acompanhada do desejo de ficar sempre conectado ao que os outros fazem. Para um adolescente, isso aparece na vontade de checar o celular a cada notificação, com receio de perder uma conversa, uma tendência ou um convite.
Brain rot
Brain rot, algo como “apodrecimento cerebral”, foi escolhida a Palavra do Ano de 2024 pela Oxford University Press, depois de uma votação pública com mais de 37 mil participantes. A editora define o termo, em tradução livre, como a suposta deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa, vista especialmente como resultado do consumo excessivo de conteúdo considerado trivial ou pouco desafiador, sobretudo on-line. Segundo a Oxford, o uso da expressão cresceu 230% entre 2023 e 2024.
Atenção a um detalhe: a própria definição usa a palavra “suposta”. Brain rot é uma expressão cultural, e não um diagnóstico médico. Na redação, use o termo como sintoma de uma preocupação social, e não como prova científica de dano ao cérebro.
Dados e repertórios com fonte
A cartilha do Inep valoriza o repertório “legitimado, pertinente e produtivo” e critica o chamado repertório de bolso, aquele citado de forma decorada e sem ligação real com o tema. Use os dados abaixo com moderação: um ou dois bem explicados valem mais do que uma lista.
Dados sobre o Brasil
Internet quase universal entre jovens. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos usavam a internet em 2025, cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes. O acesso diário pelo celular chegou a 98% entre os adolescentes de 15 a 17 anos.
Redes sociais na adolescência. A mesma pesquisa mostra que o uso de redes sociais foi de 89% entre os adolescentes de 13 a 14 anos e de 15 a 17 anos.
Consumo frequente de vídeos. Vídeos de influenciadores digitais foram vistos por 80% dos usuários de 9 a 17 anos, e 46% os assistem várias vezes ao dia.
Publicidade e apostas. Entre os usuários de 11 a 17 anos, 84% viram conteúdos com divulgação de produtos ou marcas sem que fossem, necessariamente, identificados como propaganda, e 53% tiveram contato com a divulgação de jogos de apostas.
Distração na sala de aula. No Pisa 2022, segundo a nota do Inep sobre o Brasil, 45% dos estudantes brasileiros disseram se distrair usando dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de matemática, contra 30% na média da OCDE. Outros 40% disseram se distrair com colegas que usavam esses aparelhos (média da OCDE: 25%).
Dado internacional (use como comparação)
Segundo a Organização Mundial da Saúde na Europa, o estudo HBSC, com quase 280 mil jovens de 11, 13 e 15 anos de 44 países e regiões da Europa, da Ásia Central e do Canadá, mostrou que o uso problemático de redes sociais subiu de 7% em 2018 para 11% em 2022. Entre as meninas, a taxa foi de 13%, e entre os meninos, de 9%. A OMS descreve esse uso problemático por sintomas parecidos com os de uma dependência, como dificuldade de controlar o uso e abandono de outras atividades. Lembre-se: esse dado não é do Brasil, então apresente-o como tendência internacional.
Repertório legal
Lei n.º 15.100/2025. Proíbe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais pelos estudantes durante a aula, o recreio e os intervalos, em todas as etapas da educação básica. Há exceções para fins pedagógicos, acessibilidade, inclusão, condições de saúde, direitos fundamentais e situações de perigo. O artigo 4.º obriga redes e escolas a criar estratégias sobre saúde mental e sofrimento psíquico, incluindo o uso imoderado dos aparelhos, e a oferecer espaços de escuta e acolhimento. A lei cita, inclusive, a nomofobia.
ECA Digital (Lei n.º 15.211/2025). Determina que produtos e serviços digitais voltados a crianças e adolescentes, ou de acesso provável por eles, garantam proteção prioritária e sigam o melhor interesse desse público. A lei também afirma que crianças e adolescentes têm o direito de ser educados, orientados e acompanhados pelos pais ou responsáveis no uso da internet, com ferramentas de supervisão parental adequadas à idade.
Repertório filosófico e sociológico (sempre parafraseado)
Byung-Chul Han, Sociedade do cansaço. O filósofo sul-coreano radicado na Alemanha descreve uma sociedade do desempenho, marcada pelo excesso de estímulos e de autocobrança, que leva ao esgotamento. Ele contrapõe a atenção profunda, necessária para o estudo e a reflexão, a uma atenção dispersa, que salta de um estímulo a outro. Essa ideia combina com o scroll infinito e com o brain rot.
Zygmunt Bauman, Modernidade líquida. O sociólogo polonês descreve um tempo de vínculos frágeis e passageiros. O conceito ajuda a discutir o FOMO, porque a conexão constante não garante relações sólidas.
Guy Debord, A sociedade do espetáculo (1967). O pensador francês critica uma vida social mediada por imagens. Na redação, a obra ajuda a explicar a comparação constante com vidas “perfeitas” exibidas nas redes.
Não invente citações desses autores. Se não tiver certeza das palavras exatas, explique a ideia com suas próprias palavras, como fizemos acima. Para treinar esse uso, leia como usar repertório na redação sem forçar citações.
Como atender às 5 competências neste tema
Na redação do Enem, dois avaliadores dão de 0 a 200 pontos em cada uma das cinco competências, e a nota final pode chegar a 1.000. Veja como cada uma se aplica aqui, de acordo com a cartilha da redação do Enem 2026.
Competência I: escrita formal. Cuidado com os estrangeirismos. Na primeira vez, explique cada termo: “o FOMO (sigla em inglês para ‘medo de ficar de fora’)”. Use itálico ou aspas para brain rot e evite gírias da internet, como “viciado em rede”, fora de aspas.
Competência II: tema e repertório. Cumpra o recorte completo: desafios, dependência, adolescentes e Brasil. Escolha repertórios que expliquem o problema, como a TIC Kids Online e a Lei n.º 15.100/2025, em vez de abrir com uma frase genérica que serviria para qualquer tema.
Competência III: projeto de texto. Defina dois desafios claros e desenvolva cada um com causa, exemplo e consequência. Um bom projeto separa o desafio ligado às plataformas do desafio ligado à formação dos jovens, sem repetir a mesma ideia.
Competência IV: coesão. Varie os conectivos e use retomadas, como “esse comportamento”, “tal lógica” e “o recurso”. A cartilha avisa que acumular conectivos não garante coesão: cada um precisa estabelecer uma relação lógica real.
Competência V: proposta de intervenção. Apresente agente, ação, meio ou modo, finalidade e detalhamento, ligados aos desafios que você discutiu. A proposta deve respeitar os direitos humanos. Propor, por exemplo, punir ou humilhar adolescentes pelo uso do celular contraria esse critério.
Modelo de tese e esboço do desenvolvimento
Uma introdução possível
Você pode abrir com o conceito de brain rot, ligando-o à realidade brasileira. Por exemplo: em 2024, a Oxford University Press escolheu brain rot como Palavra do Ano, termo que descreve a suposta deterioração mental causada pelo consumo excessivo de conteúdo superficial on-line. No Brasil, onde 92% das pessoas de 9 a 17 anos usam a internet, segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, essa preocupação ganha força entre adolescentes.
Modelo de tese: “Nesse cenário, enfrentar a dependência tecnológica entre adolescentes brasileiros é um desafio, sobretudo pelo modelo de negócio das plataformas, que transforma a atenção juvenil em lucro, e pela insuficiência da educação digital, que ainda não prepara os jovens para reconhecer e controlar esses mecanismos.”
Desenvolvimento 1: as plataformas e a economia da atenção
Tópico frasal: o design das plataformas dificulta a autorregulação dos adolescentes.
Repertório: o scroll infinito e o FOMO, conforme a definição de Przybylski e colegas, ou a atenção dispersa descrita por Byung-Chul Han.
Dado: 46% dos usuários de 9 a 17 anos assistem a vídeos de influenciadores várias vezes ao dia, e 84% dos de 11 a 17 anos viram divulgação de produtos sem identificação clara de propaganda (TIC Kids Online Brasil 2025).
Consequência: como o conteúdo nunca termina e cada notificação reativa o medo de ficar de fora, a interrupção depende quase só do adolescente, que ainda está desenvolvendo seu autocontrole.
Fechamento: sem regras que limitem esses mecanismos, a responsabilidade fica injustamente concentrada no usuário mais vulnerável.
Desenvolvimento 2: a educação digital ainda insuficiente
Tópico frasal: proibir o celular na escola é um passo, mas não ensina o jovem a usar a tecnologia com equilíbrio fora dela.
Repertório: a Lei n.º 15.100/2025, que restringe o celular nas aulas e intervalos e exige estratégias de saúde mental, e o ECA Digital, que prevê o acompanhamento dos pais.
Dado: no Pisa 2022, 45% dos estudantes brasileiros relataram distração com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de matemática (média da OCDE: 30%).
Consequência: sem formação crítica, o adolescente pode sair da sala de aula direto para horas de rolagem, e a família, muitas vezes, não sabe como orientá-lo.
Fechamento: a restrição sem educação não forma autonomia, e o problema volta assim que a regra deixa de valer.
Proposta de intervenção completa (com os 5 elementos)
A cartilha do Inep pede que a proposta indique a ação, o agente, o meio de execução, a finalidade e algum detalhamento. Veja um exemplo ligado aos dois desenvolvimentos acima:
“Portanto, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com as secretarias estaduais de educação, criar um programa permanente de educação digital nas escolas de ensino médio, por meio de oficinas mensais conduzidas por professores formados e por psicólogos escolares, nas quais os estudantes analisem como o scroll infinito e as notificações exploram o medo de ficar de fora. O programa, que deve incluir encontros com as famílias sobre supervisão parental, terá como finalidade desenvolver a autonomia dos adolescentes no uso das telas, de modo a reduzir a dependência tecnológica e seus efeitos sobre a atenção e a saúde mental.”
Agente: Ministério da Educação, em parceria com as secretarias estaduais de educação.
Ação: criar um programa permanente de educação digital no ensino médio.
Meio/modo: oficinas mensais com professores formados e psicólogos escolares.
Finalidade: desenvolver a autonomia dos adolescentes e reduzir a dependência tecnológica.
Detalhamento: as oficinas analisam o scroll infinito e as notificações, e o programa inclui encontros com as famílias sobre supervisão parental.
Se quiser uma segunda proposta para o primeiro desenvolvimento, você pode atribuir à ANPD, que tem a competência de fiscalizar o cumprimento do ECA Digital, a ação de cobrar das plataformas ferramentas de pausa e limites de tempo ativados por padrão para usuários adolescentes. Antes de escrever, confira se cada proposta responde a um desafio que você discutiu. O texto sobre como ligar a intervenção ao problema do texto aprofunda esse ponto.
Erros comuns neste tema
Demonizar a tecnologia. A própria TIC Kids Online mostra usos escolares da internet. O problema do tema é a dependência, e não o celular em si.
Tratar brain rot como diagnóstico. O termo é cultural, e a Oxford o define como uma deterioração “suposta”. Não diga que a ciência “comprovou” que o cérebro apodrece.
Esquecer o Brasil. Usar só dados europeus ou norte-americanos pode levar ao tangenciamento. Traga pelo menos um dado ou uma lei brasileira.
Culpar apenas o adolescente. Dizer que “falta força de vontade” ignora o desenho das plataformas e a responsabilidade de empresas, escolas e famílias.
Inventar números ou citações. Um dado falso tira a credibilidade do texto. Se não lembrar o número exato, prefira uma formulação geral e correta.
Propostas vagas ou punitivas. “É preciso conscientizar a população” não basta. E propostas que humilham ou punem jovens ferem os direitos humanos.
Explicar os três termos e não argumentar. Definir scroll, FOMO e brain rot é útil, mas o texto precisa defender uma tese, e não virar um glossário.
Checklist rápido antes de passar a limpo
A tese fala em desafios, dependência tecnológica, adolescentes e Brasil?
Usei pelo menos um dos conceitos do recorte (scroll, FOMO ou brain rot) e expliquei o que ele significa?
Cada parágrafo de desenvolvimento tem um desafio diferente, com repertório e consequência?
Os dados citados estão corretos e têm a origem indicada?
Expliquei os termos em inglês na primeira menção?
A proposta tem agente, ação, meio, finalidade e detalhamento, e respeita os direitos humanos?
O texto tem entre 8 e 30 linhas, sem trechos copiados dos textos motivadores?
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