
REDAÇÃO · EIXOS TEMÁTICOS
Aprenda a delimitar o eixo da inclusão digital, interpretar indicadores do IBGE e construir argumentos e intervenção com exemplos autorais comentados.
Discutir inclusão digital em uma redação exige mais do que afirmar que a internet é importante. O candidato precisa identificar qual desigualdade pretende analisar, como ela se produz e o que impede sua superação. Ter conexão em casa, conseguir utilizar um serviço e avaliar criticamente uma informação são situações relacionadas, mas não equivalentes.
Este material apresenta uma proposta autoral de estudo do eixo temático, apoiada em dados oficiais e exemplos comentados. Não é previsão do tema do Enem nem texto pronto para memorizar. Sua utilidade está em ensinar um procedimento: delimitar o problema, selecionar evidência, explicar o mecanismo social e construir uma intervenção compatível com o argumento desenvolvido.
A apresentação oficial da Cartilha da Redação do Enem 2026 destaca a defesa de um ponto de vista com argumentos consistentes e uma proposta de intervenção respeitosa aos direitos humanos. Esses princípios orientam o exercício abaixo. O estudante deve sempre responder ao recorte efetivamente solicitado na prova, que pode ser diferente dos exemplos de treino deste artigo.
Segundo o módulo de Tecnologia de Informação e Comunicação da PNAD Contínua, a internet era utilizada em 95% dos domicílios particulares permanentes do país em 2025. Eram 76 milhões de domicílios. A notícia do IBGE foi publicada em 2 de julho de 2026 e atualizada em 6 de julho; portanto, ano de referência e data de divulgação não são iguais.
O levantamento também informou utilização em 95,8% dos domicílios urbanos e 88% dos rurais. Entre os quatro milhões de domicílios sem utilização, o motivo mais indicado foi nenhum morador saber usar a internet, com 36,5%; o custo do serviço apareceu com 25,9%. Esses percentuais se referem ao grupo sem utilização, e não a todos os brasileiros.
Uma formulação segura seria: dados do IBGE referentes a 2025 mostram ampla presença da internet nos domicílios, mas também barreiras ligadas às habilidades de uso e ao custo. A conclusão de que essas barreiras merecem políticas distintas é uma interpretação argumentativa. A pesquisa fornece a evidência; o texto precisa explicar o raciocínio que conecta o dado à tese.
Evite escrever que 95% das pessoas possuem internet de qualidade. O indicador citado é domiciliar e não comprova, sozinho, estabilidade da conexão, acesso individual, equipamento adequado ou domínio das ferramentas. Alterar o sujeito do dado transforma uma informação correta em afirmação imprecisa. Antes de inserir uma estatística, confira sempre quem foi medido e o que exatamente foi observado.
Como organização didática, podemos separar infraestrutura, condições materiais, habilidades e desenho dos serviços. Infraestrutura envolve a disponibilidade de conexão no território. Condições materiais incluem equipamento, custo e possibilidade de uso. Habilidades dizem respeito ao que a pessoa consegue fazer. O desenho do serviço envolve a clareza e a acessibilidade da tarefa que se espera que o usuário execute.
Essa divisão é uma ferramenta de análise, não uma classificação estatística atribuída ao IBGE. Ela permite abandonar frases vagas. Se o problema discutido é dificuldade de preencher um formulário, instalar uma antena pode não ser suficiente. Se a conexão não chega ao território, uma oficina de informática, sozinha, também não resolve a barreira de acesso.
Imagine, como situação hipotética, uma estudante que utiliza um telefone compartilhado pela família e precisa enviar um arquivo extenso para uma inscrição. A existência de internet no domicílio não elimina o conflito de horários, a limitação do aparelho ou a dificuldade de digitalizar documentos. O exemplo ilustra uma possibilidade de análise; não é relato apurado de uma pessoa real.
Em uma redação, escolha as dimensões que realmente explicam o recorte. Tentar discutir todas em poucas linhas tende a produzir enumeração superficial. Dois argumentos bem desenvolvidos costumam oferecer mais consistência do que uma lista de cinco causas sem explicação. O critério deve ser a capacidade de demonstrar relações, e não a quantidade de palavras técnicas.
Uma tese fraca seria: a inclusão digital é um problema que precisa ser resolvido pela sociedade. A frase informa uma avaliação genérica e deixa o leitor sem saber qual obstáculo será analisado. Ela também poderia ser aplicada a muitos outros assuntos, o que indica pouca relação com a particularidade do tema escolhido.
Considere este exemplo autoral para um recorte hipotético sobre acesso a serviços públicos digitais: a expansão dos canais eletrônicos precisa ser acompanhada de formação para uso e atendimento acessível, pois conexão disponível não assegura autonomia para concluir procedimentos. A tese estabelece uma posição e anuncia duas linhas de desenvolvimento, sem afirmar que todos os usuários enfrentam a mesma dificuldade.
Observe que o recorte foi definido antes da frase. Se o comando tratasse especificamente de educação rural, seria necessário selecionar outros aspectos e reorganizar a tese. O material sobre como evitar o tangenciamento do tema ajuda a conferir essa correspondência entre proposta e argumento. Um repertório interessante não autoriza deslocar o assunto solicitado.
Uma revisão simples é sublinhar o problema e circular a causa indicada. Se a tese só contém palavras como desafios, importância e conscientização, talvez ainda falte precisão. Pergunte qual dificuldade concreta será explicada e por que ela persiste. A resposta deve aparecer no desenvolvimento, com consequências e exemplos relacionados ao mesmo recorte.
Leia este exemplo autoral: a presença da internet em grande parte dos domicílios não elimina as barreiras ao uso autônomo de serviços digitais. O levantamento do IBGE sobre 2025 identifica o desconhecimento de uso entre os motivos apresentados nos domicílios sem utilização. Assim, uma política limitada a disponibilizar um canal eletrônico pode deixar de atender quem precisa de orientação para concluir tarefas. A formação prática deve acompanhar a expansão do acesso.
O parágrafo começa com uma ideia delimitada, apresenta evidência e explica uma consequência possível para a política discutida. O dado não aparece como decoração. A conclusão também não afirma que o IBGE avaliou um programa específico de serviços públicos. Essa distinção preserva o alcance da fonte e deixa explícito o trabalho interpretativo do autor.
Há ainda um cuidado causal. A pesquisa citada não demonstra que um formulário específico provocou exclusão em determinado município. Para sustentar essa afirmação, seria necessária outra evidência. O argumento do exemplo é mais moderado: obstáculos de uso precisam ser considerados no desenho das políticas. Uma conclusão limitada e bem sustentada é melhor do que uma acusação ampla sem comprovação.
Para treinar, escreva ao lado de cada frase sua função: ideia central, evidência, explicação ou consequência. Se duas frases apenas repetem a ideia central com palavras diferentes, desenvolva o mecanismo que falta. Explique o que acontece entre a barreira inicial e o resultado social. É nessa ligação que o argumento ganha profundidade e deixa de depender de afirmações genéricas.
A intervenção deve responder ao problema que foi demonstrado. Em um exercício sobre habilidades de uso, uma proposta possível seria a realização de oficinas práticas em equipamentos públicos, com tarefas de navegação, envio de documentos e proteção de dados. É uma proposta pedagógica autoral, não descrição de programa existente nem afirmação sobre a competência legal de uma unidade específica.
Para torná-la mais precisa, indique quem a executaria no contexto escolhido, o que seria feito, como funcionaria e qual resultado pretende alcançar. Um detalhamento útil poderia prever atendimento orientado em horários acessíveis e materiais com linguagem clara. A finalidade seria ampliar a autonomia do usuário. O desenho precisa respeitar suas necessidades e não tratá-lo como culpado pela barreira.
Se o desenvolvimento discutiu custo de conexão, a resposta deve incluir uma medida compatível com esse custo, em vez de apenas recomendar que as pessoas aprendam a usar a internet. Se discutiu acessibilidade, a proposta precisa alcançar a interface e o atendimento. A orientação para ligar a intervenção ao problema da redação aprofunda essa correspondência.
Evite prometer que uma ação isolada eliminará todas as desigualdades. Uma finalidade delimitada, como reduzir dificuldades para concluir determinado serviço, é mais defensável. Também não invente orçamento disponível, lei específica ou parceria já firmada para tornar a proposta convincente. É possível propor uma ação com clareza sem apresentar uma hipótese como política implementada.
Um texto crítico não precisa negar as vantagens dos serviços digitais. Eles podem, em situações adequadas, reduzir a necessidade de deslocamento e facilitar o acompanhamento de procedimentos. Esse é um raciocínio sobre possibilidades, não uma medição de resultados atribuída à pesquisa domiciliar. Reconhecer benefícios ajuda a evitar uma oposição simplista entre tecnologia e direitos.
O ponto a defender pode ser justamente que a digitalização precisa de condições de uso. A solução não se reduz a rejeitar canais eletrônicos ou exigir que toda tarefa seja feita presencialmente. A análise deve considerar quem consegue concluir o procedimento, quais alternativas existem e como a orientação pode ampliar a autonomia sem expor dados pessoais.
Como exercício, escreva uma frase de concessão e outra de posicionamento: embora os canais eletrônicos possam facilitar tarefas, sua expansão precisa considerar as pessoas que enfrentam barreiras de uso. Depois, desenvolva o motivo dessa posição. Não basta inserir embora ou entretanto para criar profundidade; a relação de ideias precisa ser sustentada no restante do parágrafo.
O primeiro erro é confundir domicílios com indivíduos. O segundo é transportar um indicador nacional para um estado ou município sem recorte territorial correspondente. O terceiro é misturar anos de pesquisas diferentes como se medissem a mesma população no mesmo momento. Esses deslizes comprometem a precisão, mesmo quando a intenção geral de discutir desigualdade é pertinente.
Outro problema é transformar o exemplo hipotético em notícia. Se você imaginou uma situação para explicar o raciocínio, apresente-a como exemplo, sem nome inventado de instituição e sem número de pessoas afetadas. A força argumentativa não depende de fabricar um caso. Ela depende de mostrar como uma condição pode produzir uma consequência no recorte analisado.
Também evite a responsabilização automática de pessoas idosas, moradores rurais ou famílias de baixa renda. Não conhecer uma ferramenta não é falha moral, e grupos sociais não são homogêneos. Descreva as barreiras e as condições de acesso, em vez de atribuir incapacidade a uma população inteira. A precisão conceitual e o respeito às pessoas precisam caminhar juntos.
Comece escolhendo um recorte hipotético, como autonomia no uso de serviços públicos digitais. Em seguida, escreva uma tese que indique dois obstáculos específicos. Selecione somente os dados que ajudam a explicar esses obstáculos e registre ano, sujeito e fonte. Depois, desenvolva cada argumento com uma relação causal compreensível e uma consequência conectada ao problema.
Na revisão, confira se a intervenção enfrenta as causas apresentadas e se todas as informações atribuídas a uma pesquisa aparecem de fato na fonte. Leia também o texto sem os números: se o raciocínio desaparece, talvez o dado esteja substituindo a explicação. A evidência deve sustentar o argumento, enquanto a análise mostra ao leitor por que aquela evidência importa.
Por fim, reescreva o trecho mais genérico. Troque a afirmação de que é preciso conscientizar por uma explicação do que precisa ser aprendido, por quem e em qual situação. O objetivo desse treino é construir uma posição fundamentada sobre inclusão digital. Ele amplia o repertório de análise, sem antecipar o tema da prova nem oferecer uma fórmula universal para qualquer proposta.
IBGE: Internet chega a 95% de domicílios do país em 2025. Publicação: 02/07/2026 às 10h; atualização: 06/07/2026 às 11h16. Referência dos dados: 2025.
Inep: apresentação oficial e acesso à Cartilha da Redação do Enem 2026. Publicação da página: 18/09/2026 às 9h18. Fontes conferidas em 30/10/2026. Exemplos e orientações deste artigo são autorais.




