30 de outubro de 2026
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REDAÇÃO · COMPETÊNCIAS

Referentes na redação: seis casos de ambiguidade e reescrita

Material pedagógico conferido em 30/10/2026 · Referências: Inep, 2026, e Ciberdúvidas, 25/10/2021

Oficina autoral para revisar pronomes, possessivos e retomadas vagas. Compare versões e aprenda a esclarecer agentes e ideias sem trocar o sentido.

Uma oficina para descobrir quem faz o quê no seu texto

Um argumento pode ficar impreciso quando o leitor não sabe a quem um pronome se refere, qual ação uma expressão resume ou quem é responsável pela medida proposta. Essa dificuldade não se resolve apenas acrescentando conectivos. É preciso reconstruir a referência: o caminho que permite identificar as pessoas, os objetos e as ideias mencionados ao longo do texto.

Esta oficina autoral trabalha seis situações de reescrita, com versões comentadas e pequenos desafios. O foco é a revisão de referentes, complementando o artigo geral sobre coesão na redação. Não se trata de uma tabela de palavras proibidas. Pronomes, repetições e expressões resumitivas podem funcionar bem; o problema aparece quando deixam o sentido indeterminado ou alteram o argumento sem justificativa.

O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa explica que formas referenciais podem remeter a expressões anteriores ou posteriores no texto. A apresentação oficial da Cartilha do Enem 2026, por sua vez, destaca a organização coerente e coesa dos argumentos. Os exemplos desta página são criações didáticas do Blog ONE, não trechos de redações de participantes nem itens oficiais de avaliação.

Caso um: dois possíveis antecedentes para o mesmo pronome

Leia o exemplo autoral: a secretaria encaminhou à escola uma orientação sobre a matrícula, mas ela não esclareceu o prazo. Quem não esclareceu: a secretaria, a escola ou a orientação? O gênero feminino permite associar o pronome às três expressões. O contexto poderia favorecer uma leitura, mas a frase, sozinha, exige uma escolha que o autor ainda não tornou segura.

Se a intenção é avaliar o documento, uma reescrita possível é: a secretaria encaminhou à escola uma orientação sobre a matrícula, mas o documento não esclareceu o prazo. Se a intenção é apontar uma falha da instituição destinatária, a versão muda: a escola recebeu a orientação, porém não informou o prazo às famílias. As duas correções não dizem a mesma coisa.

Esse contraste ensina uma etapa anterior à correção gramatical: decidir o que se quer afirmar. Repetir uma palavra ou substituir um pronome sem resolver essa decisão pode apenas esconder a ambiguidade. Ao revisar, liste os antecedentes possíveis e escreva ao lado o escolhido. Depois, reconstrua a frase para que a leitura desejada não dependa de adivinhação.

Desafio de treino: a universidade enviou à comissão uma proposta de apoio, porque ela precisava de revisão. Escreva uma versão em que a proposta precisa ser revista e outra em que a comissão precisa de revisão de seus procedimentos. Observe como a mudança de referente obriga a ajustar também o complemento, tornando a informação mais específica.

Caso dois: o possessivo que embaralha responsabilidades

Considere: o município apresentou à associação seu plano de atendimento. O plano é do município ou da associação? O possessivo seu não identifica de maneira suficiente o possuidor nesse contexto. A frase pode parecer natural para quem sabe a história, mas o leitor da redação só dispõe das informações que foram efetivamente fornecidas.

Se o plano pertence ao município, a solução mais direta é explicitar: o município apresentou à associação o plano municipal de atendimento. Se pertence à associação, outra versão seria: a associação recebeu do município uma análise do plano que havia elaborado. Essa segunda reescrita reorganiza a informação para não deixar a autoria em disputa.

Não há obrigação de substituir todo seu por dele ou dela. Essas formas também podem permanecer ambíguas quando há mais de um antecedente compatível. A escolha deve responder à pergunta: o leitor consegue identificar o possuidor sem conhecer a intenção do autor? Quando não consegue, retomar o nome ou a função institucional costuma ser mais eficiente.

No texto de intervenção, esse cuidado é particularmente útil. Uma frase como a escola deve orientar a família sobre sua responsabilidade pode atribuir o dever a agentes diferentes. Antes de discutir a medida, esclareça qual responsabilidade está em análise e quem a assume. A precisão do referente ajuda a definir a própria proposta, não apenas sua aparência linguística.

Caso três: isso resume qual parte do argumento?

Veja o trecho autoral: o portal exige vários documentos, o atendimento presencial foi reduzido e parte dos usuários precisa de orientação. Isso dificulta o acesso. O pronome pode resumir todo o conjunto, mas também pode ser entendido como referência apenas à necessidade de orientação. A consequência fica pouco explicada, porque o texto acumula situações sem mostrar a relação entre elas.

Uma reescrita possível é: a combinação entre exigências documentais e redução do atendimento presencial pode dificultar o acesso de usuários que necessitam de orientação. Agora a expressão identifica as duas condições analisadas e o grupo afetado. A versão ainda exige evidências se for apresentada como descrição de uma situação real, mas a estrutura do raciocínio ficou mais clara.

Outra possibilidade é manter duas frases: o portal exige vários documentos, enquanto o atendimento presencial foi reduzido. Essa combinação de exigências e menor apoio pode dificultar a conclusão do procedimento. A expressão resumitiva recebe um núcleo informativo, combinação, e especifica o que está sendo retomado. Não é preciso eliminar todo demonstrativo para escrever bem.

O teste de revisão é simples: substitua mentalmente isso pela informação que acredita estar resumindo. Se precisar escolher entre três ideias diferentes, talvez convenha nomear o conjunto. Se a retomada estiver evidente e a frase seguinte acrescentar uma explicação, o pronome pode permanecer. Clareza depende do contexto, e não de uma proibição mecânica.

Caso quatro: a troca de palavra muda o julgamento

Um aluno escreve: o projeto reorganizou os horários de atendimento. Essa negligência prejudicou os moradores. A expressão negligência não apenas retoma a reorganização; ela avalia a ação como descuido. Essa avaliação pode ser defendida, mas exige explicação. Sem demonstrar por que a alteração foi inadequada, o texto transforma uma caracterização forte em conclusão não sustentada.

Uma versão mais cautelosa seria: a reorganização dos horários reduziu as opções de atendimento dos moradores que trabalham durante o dia. Se essa consequência estiver documentada no contexto usado, o argumento passa a explicar o problema. A avaliação crítica pode surgir depois, apoiada no efeito demonstrado, em vez de ser imposta pela troca de um substantivo.

O mesmo ocorre quando uma proposta vira solução definitiva na frase seguinte ou quando uma dificuldade passa a ser chamada de abandono. A retomada lexical pode acrescentar um ponto de vista, mas não deve contrabandear uma conclusão. Revise as expressões que nomeiam ações anteriores e confira se a intensidade da avaliação corresponde ao que foi demonstrado.

Como exercício, compare estas retomadas para uma campanha de informação: essa iniciativa, essa obrigação, esse avanço e essa omissão. Cada expressão apresenta uma perspectiva diferente. Escolha uma e escreva a justificativa necessária. O objetivo não é tornar o texto neutro a qualquer custo, mas fazer com que o julgamento seja parte de um argumento verificável.

Caso cinco: o referente distante exige recuperação

Imagine um parágrafo que apresenta um programa de apoio, depois descreve uma pesquisa, menciona uma escola e termina com a frase ele precisa de continuidade. O programa pode ser o antecedente pretendido, mas a distância e a presença de novas informações tornam a recuperação trabalhosa. A concordância ajuda, porém nem sempre oferece uma pista suficiente.

Uma solução é recuperar o nome informativo: o programa de apoio precisa de continuidade para acompanhar os estudantes durante o ano letivo. A repetição não constitui um defeito automático. Ela pode funcionar como orientação ao leitor depois de uma passagem com muitas informações. O critério é a necessidade de recuperar o assunto sem reiniciar o texto inteiro.

Também pode ser necessário reorganizar o parágrafo. Se a pesquisa e a escola entram apenas como desvios, talvez o problema não seja o pronome, mas a sequência das informações. Aproximar a retomada de seu antecedente reduz o esforço de leitura. Uma revisão útil considera a posição das frases, além da escolha de palavras isoladas.

Antes de substituir um termo por expressão mais sofisticada, pergunte se ela é realmente equivalente. Programa, projeto, política e campanha não são sinônimos universais. A variação lexical perde valor quando modifica a natureza do objeto discutido. É preferível repetir a denominação adequada a fazer o leitor acompanhar quatro nomes para uma iniciativa cujo funcionamento permanece indefinido.

Caso seis: o sujeito oculto troca o agente da proposta

Leia: a secretaria deve apoiar as escolas, orientar as famílias e ampliar seus canais de atendimento. A sequência sugere que a secretaria executará as três ações, mas o possessivo pode reabrir a dúvida sobre os canais. Uma correção direta é especificar canais da secretaria ou canais das escolas, conforme a proposta que se deseja defender.

Agora considere: a secretaria deve orientar as escolas. Também precisam divulgar os prazos. O sujeito da segunda frase pode ser recuperado como escolas, pela flexão plural, mas a relação com a obrigação anterior merece ser explicitada. Reescreva: as escolas, por sua vez, devem divulgar os prazos às famílias. O texto passa a distribuir os deveres com clareza.

Essa distinção é importante quando uma intervenção envolve mais de um agente. Se a primeira frase atribui a execução ao poder público e a seguinte parece transferi-la às famílias, a proposta muda sem explicação. O material sobre ligação entre intervenção e problema ajuda a revisar essa coerência. Aqui, a tarefa específica é acompanhar quem realiza cada ação.

Um recurso de estudo é escrever os agentes na margem do rascunho e ligar cada verbo ao responsável. Se um verbo admitir dois agentes sem que isso seja intencional, reescreva. Se nenhum agente puder ser identificado, verifique se a construção impessoal é adequada ou se está ocultando uma informação necessária para compreender a medida proposta.

Uma revisão completa de parágrafo, passo a passo

Exemplo autoral para revisão: o conselho discutiu com a direção a proposta de apoio aos estudantes. Ela considerou sua execução difícil. Isso deve ser melhorado para resolver o problema. Há três lacunas: quem avaliou a dificuldade, a quem pertence a execução e qual aspecto deve ser modificado. A frase final promete uma solução sem definir sequer o objeto da mudança.

Uma reescrita possível é: o conselho discutiu com a direção a proposta de apoio aos estudantes. A direção apontou falta de pessoal para executar as atividades. Para enfrentar essa limitação, o conselho sugeriu reduzir a quantidade inicial de oficinas e avaliar a necessidade de ampliar a equipe. Essa versão escolhe uma interpretação e acrescenta informações hipotéticas para torná-la completa.

Em uma redação real, não se pode acrescentar fatos apenas para consertar o período. O exemplo demonstra uma reorganização possível em situação inventada. Ao revisar seu texto, use somente informações que possa sustentar. Quando a informação necessária não existe, limite a afirmação ou reformule a proposta, em vez de fabricar um detalhe para preencher a lacuna.

Como aplicar a oficina ao seu próprio rascunho

Selecione um parágrafo e marque pronomes, possessivos, sujeitos ocultos e expressões como essa medida ou tal situação. Ao lado de cada ocorrência, escreva o referente pretendido. Depois, faça uma leitura como se desconhecesse o assunto. A pergunta não é se você sabe o que quis dizer, mas se o leitor recebe pistas suficientes para reconstruir esse sentido.

Escolha apenas as ocorrências que provocam dúvida e teste duas soluções: explicitar o nome ou reorganizar as frases. Compare as versões e preserve aquela que mantém o argumento com menor esforço de leitura. Não transforme a revisão em troca indiscriminada de palavras. Uma correção só é boa quando conserva o conteúdo pretendido e torna suas relações mais claras.

Por fim, confira se a reescrita alterou a força de alguma avaliação ou a responsabilidade de um agente. Essa última leitura impede que uma melhoria local produza um problema maior. O objetivo da oficina é ensinar escolhas conscientes de referência, com exemplos transferíveis para outros temas, sem oferecer uma fórmula automática de nota ou um número obrigatório de recursos coesivos.

Fontes consultadas

Inep: apresentação oficial da Cartilha da Redação do Enem 2026. Publicação: 18/09/2026 às 9h18.

Ciberdúvidas da Língua Portuguesa: Tipos de coesão, resposta de Carla Marques. Publicação: 25/10/2021. Conferência: 30/10/2026. Todos os exemplos e exercícios deste artigo são autorais.

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