
REDAÇÃO · COMPETÊNCIAS
Aprenda a reconhecer um ponto válido sem abandonar sua tese. Compare exemplos autorais com embora e mas, identifique contradições e pratique a reescrita.
Reconhecer uma parte válida de uma objeção pode tornar sua posição mais precisa. Na redação, a concessão permite admitir um benefício, um avanço ou uma dificuldade e explicar por que esse reconhecimento não elimina o problema analisado. O recurso funciona quando o leitor entende tanto o ponto admitido quanto a razão pela qual a tese continua defensável.
Compare dois exemplos autorais. Primeiro: oferecer uma plataforma de estudo resolve a desigualdade educacional. Segundo: embora uma plataforma amplie as possibilidades de acesso a materiais, seu aproveitamento depende de condições de uso e de acompanhamento pedagógico. A segunda formulação delimita o alcance da ferramenta. Ela permite defender seu valor sem transformar uma possibilidade em solução universal.
Esta oficina apresenta escolhas de escrita, e não uma fórmula obrigatória de avaliação. A apresentação oficial da Cartilha da Redação do Enem 2026 destaca a defesa de um ponto de vista com argumentos coerentes e articulados. Os exemplos, situações e procedimentos de revisão deste artigo são autorais; não reproduzem redações de participantes nem representam previsões do tema da prova.
Há contradição quando o texto sustenta afirmações incompatíveis nas mesmas condições. Se a introdução declara que toda orientação digital é suficiente e o desenvolvimento afirma que nenhuma orientação digital funciona, falta esclarecer a mudança. Inserir um conectivo entre essas frases não resolve o conflito. É necessário revisar o que foi afirmado e especificar em que situações cada avaliação se aplica.
Na concessão, o autor reconhece um ponto e limita a conclusão que poderia ser extraída dele. Considere: a divulgação de informações é necessária, mas não garante que todos consigam realizar o procedimento. Não se nega a utilidade da divulgação. Questiona-se a ideia de que ela, sozinha, resolva todas as dificuldades. O argumento depende dessa distinção entre contribuição e suficiência.
Também existem contrastes que apenas comparam características. Dizer que uma turma estuda pela manhã e outra à noite não constitui, por si só, uma concessão. Para haver o movimento argumentativo trabalhado aqui, um dos pontos precisa criar uma expectativa que a continuidade do texto restringe. Identificar essa expectativa ajuda a escolher o conectivo e evita construir uma oposição apenas decorativa.
Uma concessão bem construída exige saber qual posição será preservada. Antes de escrever embora, formule sua tese em uma frase direta. Em uma situação hipotética sobre bibliotecas, a posição pode ser: ampliar o acervo é importante, mas a formação de leitores também exige condições de encontro com os livros. O núcleo do argumento está na relação entre oferta e uso.
Em seguida, escreva a objeção mais plausível. Alguém poderia afirmar que disponibilizar livros já representa uma contribuição relevante. Esse reconhecimento é compatível com a tese escolhida. O passo seguinte consiste em mostrar o limite: a disponibilidade não determina, automaticamente, a participação de quem desconhece o espaço ou não encontra horários acessíveis. Trata-se de uma hipótese didática, não de um diagnóstico de bibliotecas reais.
Por fim, pergunte se a ressalva realmente exige resposta. Uma objeção fraca, inventada apenas para ser derrubada, pode ocupar espaço sem aprofundar a discussão. É mais produtivo reconhecer um ponto razoável e explicar seu alcance. Se a sua tese só se mantém quando o outro lado é descrito de maneira absurda, talvez ela precise de uma formulação mais cuidadosa.
Embora pode introduzir uma informação que o autor admite antes de apresentar a afirmação principal. Exemplo autoral: embora a campanha tenha ampliado a divulgação, parte do público ainda precisa de orientação presencial. Na construção proposta, a oração inicial reconhece o avanço; a principal apresenta a limitação relevante. Para descrever uma campanha real dessa maneira, seria necessário comprovar as duas informações.
Com mas, a organização muda: a campanha ampliou a divulgação, mas parte do público ainda precisa de orientação presencial. O período começa pelo avanço e depois conduz o leitor à restrição. Em estudo sobre estruturas concessivas em textos jornalísticos, Erica Almeida e Suelen Sales, vinculadas à UFRJ, discutem estratégias argumentativas associadas a construções com mas e embora. A oficina utiliza esse contraste como ponto de partida didático.
Apesar de também permite reconhecer uma circunstância sem torná-la decisiva: apesar da ampliação da divulgação, persistem dúvidas sobre o atendimento. Observe a diferença de construção: embora a divulgação tenha aumentado; apesar do aumento da divulgação. Não basta trocar uma expressão pela outra mantendo qualquer estrutura. Leia o período completo e confira concordância, forma verbal e sentido depois da substituição.
Versão inicial, criada para o exercício: a escola disponibilizou materiais digitais; portanto, todos os estudantes passaram a aprender melhor. O problema está no salto entre disponibilizar um recurso e garantir um resultado. A segunda afirmação exige evidências que a primeira não fornece. Mesmo em um texto favorável à tecnologia, o argumento fica frágil quando transforma uma ação em efeito universal.
Uma reescrita possível é: embora a disponibilização de materiais digitais amplie as opções de consulta, a aprendizagem exige que o estudante compreenda como utilizá-los e receba orientação sobre suas dificuldades. Essa versão estabelece uma relação mais delimitada entre recurso e finalidade. Ainda assim, em uma discussão empírica, as condições e os efeitos mencionados precisam de sustentação adequada ao recorte.
Depois da concessão, desenvolva o mecanismo. Explique, por exemplo, por que ter acesso a um arquivo não equivale a compreender seu conteúdo. Apresente uma situação hipotética em que o aluno lê uma resolução, mas não identifica a etapa em que errou. A concessão abre a análise; a explicação seguinte demonstra por que a ressalva importa para a tese defendida.
Outro exemplo autoral: ampliar o atendimento é difícil, logo nada pode ser feito. A frase transforma uma dificuldade em impossibilidade sem demonstrar a passagem. Uma concessão permite reconhecer o obstáculo e preservar a necessidade de agir: embora a ampliação do atendimento exija organização de recursos, a instituição pode avaliar medidas graduais para reduzir as barreiras identificadas.
Essa reescrita não prova que qualquer medida seja viável. Ela apenas impede que a existência de um custo encerre automaticamente o raciocínio. O desenvolvimento precisa especificar a barreira, a finalidade e os limites da proposta. No exercício, podem ser considerados horários de orientação e clareza dos procedimentos, sempre como alternativas hipotéticas, sem atribuir orçamento ou competência não verificados a um órgão real.
Quando o argumento envolve responsabilidades, revise quem executa cada ação. Uma concessão pode ficar clara e, mesmo assim, a proposta continuar vaga por causa de pronomes ou sujeitos indefinidos. A oficina de referentes e reescrita do Blog ONE aprofunda essa etapa. Aqui, o objetivo é assegurar que reconhecer uma limitação não apague o agente responsável pela resposta.
Considere uma proposta fictícia de criar atividades culturais em um bairro. Uma defesa apressada afirma que o evento beneficiará toda a comunidade. Uma crítica igualmente apressada responde que o evento não tem valor porque algumas pessoas não poderão participar. As duas posições podem ser reformuladas ao separar a utilidade da iniciativa das condições que distribuem seus benefícios.
Exemplo de reescrita: embora as atividades ampliem as oportunidades de contato com manifestações culturais, horários pouco acessíveis podem limitar a participação de moradores que trabalham no período previsto. A tese pode defender a iniciativa e, simultaneamente, propor ajustes de acesso. O reconhecimento do benefício não elimina a crítica à organização, e a crítica não exige negar todo o benefício.
Para continuar o parágrafo, explique o vínculo entre a condição e o efeito. Quem fica de fora? Qual aspecto da organização cria a barreira? Que ajuste responde a ela? Essas perguntas ajudam a produzir uma análise concreta. Evite substituir a explicação por uma afirmação ampla sobre desigualdade que poderia ser colada em qualquer assunto sem mudança de sentido.
Uma concessão não concede licença para inventar fatos. Ao escrever embora o programa tenha atendido milhares de pessoas, o autor apresenta uma informação factual. O conectivo não reduz a necessidade de comprovar o número. Se o dado não foi confirmado, retire a quantidade ou escolha um exemplo explicitamente hipotético. Uma frase elegante continua inadequada quando sua premissa é falsa.
O mesmo cuidado vale para generalizações como embora todos tenham acesso à internet ou apesar de as escolas oferecerem atendimento completo. Essas formulações podem apagar justamente a desigualdade que a redação pretende analisar. Antes de discutir a insuficiência de uma medida, confira se a sua existência e o seu alcance foram estabelecidos. Não trate uma intenção anunciada como resultado já alcançado.
Em um exercício de escrita, deixe claro quando a situação é inventada. Em uma redação sobre um problema real, diferencie informação dos textos motivadores, repertório conhecido e hipótese de raciocínio. Se uma evidência não está disponível, restrinja a afirmação. A precisão costuma melhorar quando o autor troca uma certeza abrangente por uma formulação compatível com aquilo que efetivamente consegue sustentar.
Primeiro movimento: separe reconhecimento e tese. Use este enunciado autoral: campanhas informativas são úteis, mas insuficientes para resolver as dificuldades de acesso ao serviço. Escreva, em duas linhas de rascunho, o que você reconhece e o que ainda pretende demonstrar. O reconhecimento é a utilidade da informação; a tese precisa explicar quais outras condições impedem o acesso.
Segundo movimento: escolha uma dificuldade concreta para o cenário fictício. Imagine que o procedimento exige uma etapa presencial e ocorre apenas durante o horário de trabalho de parte dos usuários. Agora, a insuficiência deixa de ser uma palavra solta. O autor dispõe de uma relação para desenvolver: conhecer a orientação não significa conseguir comparecer ao atendimento nas condições estabelecidas.
Terceiro movimento: produza uma sequência completa. Exemplo autoral: embora a campanha informe os documentos necessários, essa divulgação não elimina a incompatibilidade entre o horário de atendimento e a jornada de alguns usuários. Nesse cenário hipotético, a orientação precisa ser acompanhada da avaliação de horários alternativos. A versão final conecta reconhecimento, limitação e resposta sem anunciar uma solução garantida.
Uma limitação identificada no desenvolvimento deve orientar a proposta final. Se o texto explicou um problema de horário, uma intervenção baseada apenas em ampliar publicidade pode deixar o diagnóstico sem resposta. Se o problema era desconhecimento do procedimento, reorganizar horários talvez não seja suficiente. A coerência depende da correspondência entre o obstáculo discutido e a ação sugerida.
Retome a concessão e extraia dela a pergunta prática: o que falta para que a contribuição reconhecida alcance o efeito pretendido? No exemplo dos materiais digitais, podem entrar orientação e acompanhamento. No exemplo do evento cultural, podem entrar condições de participação. São possibilidades de exercício; uma proposta dirigida a uma instituição real precisa respeitar suas atribuições e o contexto apresentado.
O roteiro do Blog ONE para ligar intervenção e problema permite aprofundar essa revisão. Ao reler a conclusão, localize a causa que cada ação pretende enfrentar. Se não conseguir apontá-la, ajuste a ação ou reveja o diagnóstico. Não acrescente uma lista de agentes apenas para transmitir aparência de completude.
Nem todo parágrafo precisa reconhecer uma objeção. Se a tarefa do trecho é definir um conceito, explicar uma causa ou analisar um exemplo, a concessão pode introduzir uma discussão lateral. Também pode enfraquecer a clareza quando o autor ainda não decidiu sua posição. Escolha o recurso por sua função no raciocínio, e não para exibir variedade de conectivos.
Evite abrir várias frases seguidas com embora e deixar as afirmações principais curtas ou incompletas. O leitor precisa identificar o que você efetivamente sustenta. Uma revisão possível é sublinhar as orações que contêm sua posição e verificar se elas formam uma sequência compreensível. Se o texto acumula ressalvas sem desenvolver nenhuma conclusão, reorganize a hierarquia das ideias.
Também não há obrigação de dividir espaço igualmente entre posições. Reconhecer uma objeção relevante não exige transformar a redação em um debate sem conclusão. O seu projeto de texto deve continuar orientando a seleção das informações. Quando uma ressalva só repete algo que já estava claro, retire-a e use o espaço para explicar melhor a relação que realmente sustenta a tese.
Antes de concluir, faça quatro perguntas ao período: qual ponto foi reconhecido; qual conclusão foi limitada; por que a tese continua válida; e qual frase demonstra essa relação? As respostas precisam aparecer no texto ou ser recuperáveis pelo contexto. Se apenas o conectivo sugere uma relação que as informações não sustentam, a revisão deve alcançar o conteúdo.
Depois, leia o parágrafo sem o conectivo e observe o vínculo entre as ideias. Esse teste não serve para eliminar todas as marcas de ligação. Ele ajuda a descobrir se existe um raciocínio anterior à escolha da palavra. Reintroduza a expressão adequada e confira se ela orienta a leitura pretendida, sem inverter a força das afirmações ou criar uma causalidade inexistente.
Para treinar, aplique o procedimento a um único parágrafo do seu rascunho. Preserve uma versão anterior, produza a nova formulação e compare o que ficou mais preciso. A aprendizagem está em compreender a escolha feita e conseguir repeti-la em outro contexto. Uma concessão útil reconhece um limite real do argumento e ajuda o leitor a entender, com mais clareza, por que a posição defendida permanece justificável.
Inep — apresentação oficial de A Redação do Enem 2026: Cartilha do(a) participante. Publicação: 18/09/2026, 9h18. Referência para a orientação geral sobre defesa de ponto de vista e articulação dos argumentos.
Erica Almeida e Suelen Sales (UFRJ) — O uso de estruturas concessivas em textos jornalísticos. Anais do IX Congresso Nacional de Linguística e Filologia; data de publicação não informada na página consultada. Referência linguística sobre estratégias com mas e embora. Consulta das referências: 31/10/2026. Exemplos e oficina: elaboração autoral do Blog ONE.




